Estudante de enfermagem que descartou bebê em lixeira sabia
Investigação da Polícia Civil de Mato Grosso revela que mãe, estudante de enfermagem, tinha conhecimento técnico para pedir ajuda após parto prematuro em Várzea
A mulher responsável por abandonar uma recém-nascida em uma lixeira de um condomínio em Várzea Grande, no último mês de julho, é estudante de enfermagem. De acordo com o delegado Rogério Gomes, da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), o fato de a investigada possuir formação na área da saúde fragiliza a tese de que ela teria descartado a criança por desespero, sob a alegação de que o bebê teria nascido sem vida.
Durante uma coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira (27), o delegado enfatizou que a suspeita detém conhecimentos técnicos que deveriam ter sido aplicados no momento do parto. Segundo Gomes, ela não poderia ter descartado o corpo sob a premissa de que a criança já estava morta, visto que, por cursar enfermagem, ela possuía plena capacidade de identificar sinais vitais e acionar serviços de emergência, como o Samu, ou buscar auxílio de vizinhos.
O caso veio à tona na manhã de 23 de julho, quando um funcionário responsável pela coleta de lixo no condomínio encontrou o corpo da recém-nascida dentro de uma caixa de papelão. O trabalhador acionou as autoridades imediatamente após a descoberta. Imagens captadas pelo sistema de monitoramento do prédio registraram o momento em que a mulher se dirige à lixeira carregando uma sacola cinza, deposita o pacote e retorna para sua unidade.
Após a identificação, a mãe foi ouvida na DHPP e confessou a autoria do descarte. Em seu depoimento, ela afirmou que apenas suspeitava da gravidez, uma vez que continuava apresentando sangramentos, e por isso não realizou o acompanhamento pré-natal, nem informou o estado gestacional ao marido ou demais familiares.
A mulher relatou que, na noite de 22 de julho, enquanto seu companheiro dormia, entrou em trabalho de parto inesperado no banheiro da residência. Ela alegou que a criança nasceu sem sinais de vida e que, após cortar o cordão umbilical, colocou o corpo em uma caixa junto com a placenta e outros resíduos, descartando o material na lixeira do condomínio durante a madrugada.
A suspeita reiterou que agiu sob um estado de confusão emocional e desespero, negando o uso de substâncias abortivas ou a participação de terceiros. O marido, também ouvido pela polícia, confirmou a versão da esposa, declarando que só tomou conhecimento do ocorrido dias depois, devido à repercussão do caso.
O laudo de necropsia, realizado pela Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), confirmou que o corpo era de uma criança do sexo feminino, com aproximadamente 26 semanas de gestação e 750 gramas. Embora não tenham sido encontrados sinais de violência física, o exame constatou que o bebê respirou após o nascimento, o que indica que a criança nasceu com vida, ainda que tenha sobrevivido por um curto intervalo.
A causa exata da morte ainda não foi determinada, sendo a prematuridade uma das hipóteses levantadas pela perícia. As investigações seguem em curso para esclarecer as circunstâncias que antecederam o parto, não sendo descartada a possibilidade de que o nascimento tenha sido provocado por substâncias abortivas ou outras intervenções, o que depende de laudos complementares.
Com a conclusão das diligências, o inquérito policial deve ser finalizado nos próximos dias. A investigada deverá ser indiciada, a princípio, por homicídio, uma vez que, na condição de genitora, possuía o dever jurídico de proteção e cuidado. O delegado Rogério Gomes ressaltou que a classificação jurídica poderá ser ajustada, podendo incluir outros crimes, como o de aborto, caso as perícias confirmem que o parto foi induzido.
Fonte: rdnews.com.br